Aflitos

Crédito: gremio.net

Há 14 anos, meu avô Juca nos deixava. O coração dele, que já era grande demais pro peito onde estava alojado, bateu uma última vez no final da manhã de 26 de novembro de 2005. Horas depois, o Grêmio, seu e meu time do coração, vencia o Náutico no Estádio dos Aflitos, em Recife, com sete homens em campo, e cumpria uma das jornadas mais inacreditáveis da história do futebol. Eu ainda custo a conceber esses dois acontecimentos, mesmo que meus olhos os tenham visto: aquela partida maluca do Grêmio e a partida sem volta de meu avô.

Não me lembro quando chorei naquele dia, em que momento as primeiras lágrimas foram derramadas. Pelo Grêmio e pelo avô. Lembro de uma tarde arrastada, o avô falecera no final da manhã. As mortes travam o relógio: tudo o mais ganha contornos ordinários, não temos para onde ir, não temos o que fazer, tampouco demandas para dar conta quando alguém que amamos se vai.  Mas custo mesmo a lembrar quando chorei.

Fomos para o plenário da Câmara de Vereadores viver o velório. O avô coberto pela bandeira do Grêmio. Dezenas de amigos e familiares consolando a avó, minha mãe, minha irmã, minhas tias, meus tios, primos, etc. O avô sempre teve a capacidade de reunir muita gente em torno dele em vida. A sua morte comprovava aquela vocação.

Mas e o Grêmio?! E o Grêmio de meu avô? É claro que também estava presente – para além da bandeira. Alguém resistia com o radinho no ouvido. E, em sua volta, eu, meu pai, meus tios, algum primo. Como se aguardássemos notícias de um guru que prenunciaria o calvário ou a redenção de nosso futuro. E quanta coisa ele teria de nos narrar naqueles noventa minutos. Pela ordem de eventos relevantes: pênalti contra o Grêmio. Cobrado na trave. Pressão do Náutico. Mais pressão do Náutico. Expulsão de um jogador do Grêmio. De outro. Outro pênalti pro Náutico. Outra expulsão de um jogador do Grêmio. Uma quarta expulsão.

E aí, neste ponto, com quatro jogadores a menos, o placar em zero, precisando de no mínimo um empate para regressar à Série A, na iminência da cobrança do segundo pênalti contra nós, que me lembro de ser tomado por uma espécie de suspensão temporal, como se eu me ausentasse daquele instante e olhasse para toda aquela cena feito espectador.

O avô morto e impossibilitado de ver seu clube do coração regressar do submundo futebolístico, minha família inteira chorando, eu e outros gremistas profanando, aos olhos de muitos, um ambiente sagrado como um velório para ouvirmos o destino de nosso time – o time que também era de meu avô. Só me restava perguntar: mas e qual é o propósito de tudo isso? Por que o avô morreu? Por que o Grêmio parece querer morrer também? Quantas mortes me aguardam nesses meus vinte anos que começaram há tão pouco tempo?

Olhei o avô mais uma vez: uma expressão de calmaria, a mesma que tantas vezes vi em seu rosto quando cochilava na poltrona em frente à tevê de sua casa na Cônego. Pensei que o coração dele talvez adivinhara o sofrimento que o Grêmio causaria e se antecipou por algumas horas. Fui puxado de volta para a realidade pelos gritos eufóricos do pai e de outros que diziam O Galatto pegou! O Galatto pegou! O Galatto pegou! O pai gritou e logo eu também gritei O Galatto pegou!, e depois que o pai gritou e que eu também gritei que O Galatto pegou!, eram meus tios e primos que gritavam que O Galatto pegou! Parecíamos querer compensar o gremismo em silêncio definitivo do avô com o volume abundante de nossa incredulidade. O pai, os tios e os primos tomaram a direção do caixão e abraçaram o avô e a bandeira do Grêmio. Eu saí correndo do plenário, desci as escadas da Câmara aos saltos e cheguei à sala do segurança, único local onde vira uma televisão em funcionamento.

Quando lá entrei, consegui assistir ao Anderson ingressar na área do Náutico, livrar-se de um zagueiro, empurrar a bola para dentro do gol e correr com ares de deboche na direção da torcida adversária. O avô morrera, mas seu Grêmio estava mais vivo do que nunca. Acho que foi aí que eu chorei. Sim, foi aí que chorei. Me dava conta, já em lágrimas e com dificuldade de acreditar no que se passava na tevê e no plenário, que aquela era a primeira, de tantas outras vitórias do Grêmio, que iríamos comemorar sem o abraço do Vô Juca.

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Bica

Guilherme Lessa Bica, 32, é jornalista, gremista e admirador do futebol de meias habilidosos. Não acha que CR7 mereça ser chamado de craque.

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