Ambiente democrático?

Uma das histórias mais engraçadas e bizarras (e hoje, didáticas) que presenciei no Beira-Rio com o meu pai foi na entrada do Portão 4, num Inter e Corinthians (ou Vasco) pelo Campeonato Brasileiro. 

Enquanto nos encaminhávamos para a catraca, um rapaz abordou meu pai, perguntando se não estava interessado em uma metade de um cigarro suspeito, por 50 centavos. O intuito dele era somar aqueles 50 centavos aos 50 centavos que ele já possuía, para adquirir o ingresso mais barato disponível à época, e poder torcer para o nosso time. 

A reação do meu pai foi largar um ‘não’ seco, me puxar pela mão e apertar ainda mais o passo. Lembro de, do alto dos meus 10 ou 11 anos de idade, ficar meio assustado com a situação, mas logo percebi que o homem não tinha nenhuma intenção de nos atacar, assaltar, ou algo parecido. Provavelmente era um trabalhador da rua, ou até um morador de rua, que tinha o mesmo objetivo que nós (assistir o clube de coração no estádio), mas não detinha dos mesmos recursos que nós. 

Antes de tratar esta história como “fábula de saudosista”, vamos tentar projetar o futuro. 

De acordo com relatos das torcidas de Grêmio e Cruzeiro, dois clubes que estão mandando seus jogos em estádios super novos, modernos e com o “conceito de arena européia”, os preços praticados pelos organizadores das partidas beira o absurdo. Os locais mais em conta chegam a custar R$ 80,00 com descontos para sócios, sócios-torcedores ou alguma outra nomenclatura que o marketing do clube invente. Isso em partidas normais, não em decisões, situações em que diretorias aproveitam para capitalizar em cima da paixão do torcedor. 

E qual será o futuro do novo Beira-Rio? Quem poderá ver os jogos do Inter? Quais serão os preços dos ingressos para a “torcida comum”, ou “não-sócios”, como gostam de chamar os marqueteiros e dirigentes dos clubes? Estes ingressos existirão, ao menos?

São perguntas que ninguém faz. Respostas que ninguém quer dar. 

Éramos o Clube do Povo, com ingressos para TODAS as classes sociais – desde a Coréia até as Cadeiras Cobertas. Hoje somos o clube dos camarotes vip e dos skyboxes, seja lá o que isso signifique.

E no futuro, a torcida, os “não-sócios”, serão todos como aquele homem que pediu uma moeda pro meu pai para tentar entrar no estádio. Excluídos de sua paixão por um bizarro e dilapidante “progresso econômico”.

Nunca mais um local de festa popular.
Ao menos a memória ainda não podem nos arrancar!

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