O tempo (ou Long Time Ago)

A memória é a mais poderosa das drogas. Pode viciar facilmente, é atrativa, traz o perigo intrínseco. E mesmo que doa, é inevitável.

Quatro anos longe do Gigante da Beira-Rio. O lugar da infância com meu pai, meu padrinho, meu primo, meu tio. O mesmo Gigantinho meio abandonado. O mesmo Portão 4, a mesma rampa da Superior. Mas mesmo que a memória nunca morra, os lugares e as coisas mudam.

Lembrar da primeira vez que ouviu Beatles é impossível. Pode ter sido numa versão abrasileirada pela Jovem Guarda. Pode ter sido numa trilha sonora de novela dos anos 80. Pode ter sido numa propaganda de televisão ou de rádio. Nem que seja acidentalmente, a maioria dos ocidentais já ouviu os piás da cidade do Echo and the Bunnymen. Mas o que dá para lembrar foi do primeiro disco da banda comprado. Revolver, capa em branco e preto. Abre com Taxman, passa por I’m Only Sleeping, ri com Doctor Robert, chora com For no One, berra em Got to Get You Into My Life, termina no passo a frente de Tomorrow Never Knows.

Foi como torcer pro Inter. Depois da primeira vez, seria pra vida inteira.

Pois no dia sete de novembro de dois mil e dez, duas paixões definitivas estavam ali, juntas. No mesmo ano em que o estádio era construído, a banda encerrava um disco com a música The End. Quatro décadas depois, a modernizada casa vermelha ouvia a mesma canção, tocada por um dos guris de Liverpool.

Dizer que o velho e o novo estavam misturados na noite fantástica do dia abafado de Porto Alegre é ser no mínimo sucinto. Vejamos: Paul McCartney, 68 anos, tocava e cantava (de maneira perfeita) músicas compostas há quase meio século atrás, com alguns instrumentos da época, mostrado em telões de última geração, de sei lá quantos metros e com imagem de alta definição. Seu público variava dos 5 aos 85 anos de idade. Seu fôlego, alegria e vontade eram de um pré-adolescente que conseguiu “just to dance with you / oooohhh”. Crianças cantavam e dançavam como adultos. Adultos choravam e se abraçavam como crianças.

E eu sentado na arquibancada do Gigante. Ou melhor, em cadeiras plásticas, vermelhas e brancas, postas logo acima do cimento. O relógio na superior agora é telão.

O tempo muda tudo. Moderniza, adapta, transforma. Mas as memórias seguem entorpecendo a mente. E na memória, canções e clubes de futebol serão sempre eternos.

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Recordar é viver

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