Para quando o futebol acabar – Uma carta para um amigo distante

Quando a morte chega, tudo para. Os últimos cinco meses foram prenhes de morte, apreensão, doença, finais. Lembrei de alguns episódios que envolveram a Senhora da Foice Afiada com o decorrer das estações, mas destaco dois.

Desde cedo, acho que como toda criança que pensa demais nas coisas, imaginava meu funeral. Quem iria, onde seria, como as pessoas se comportariam. Mas em um ponto esta fantasia macabra ficava realmente sombria e sentia um aperto na alma: eu nunca mais veria o Inter. Nunca mais o time de vermelho e branco romperia o túnel do Beira-Rio, subindo e correndo rumo ao gramado sagrado – ao menos não mais para mim. Nunca mais veria aqueles homens dependurados na cobertura da social, contra o sol que insistia em não morrer no horizonte do rio, cuidando da bateria de fogos de artifício que anunciava que o Inter entraria em campo. Depois disso tinha pensamentos mais práticos: em que fase da temporada seria melhor morrer? Depois de uma vitória de virada fora de casa, depois de um título, de um Grenal, alma lavada, espírito leve? E se por um acaso do destino eu fosse embora logo depois da classificação para uma semifinal? A dúvida me comeria as entranhas (a dúvida e a terra). E se estivéssemos dependendo de um empate no final de semana e eu batesse as botas na quinta? O horror, o horror.

Corta para setembro de 2004. Meu amigo Darlan Dotto Wiersinski morre em um acidente de carro. Filho de gaúcho, colorado, brizolista, 20 e poucos anos. Poderia ir colocando vírgulas aqui até o final do texto e ainda faltariam coisas que o Darlan foi e fez. Larger than life, como dizem em português moderno. Além da música, do cinema e da política, nossa identificação principal era o futebol, tanto pelo Inter quanto por jogar. Ele tinha sido jogador de categoria de base em alguns clubes, incluindo uma coincidência macabra: havia sido companheiro de quarto de Mahicon Librelato nas categorias menores do Criciúma. Segundo ele contava, se identificaram por gostarem de rock. Outro que se foi jovem num acidente automobilístico. Conheci Darlan na faculdade e os tempos de tentar ser profissional da bola tinham sido abandonados pela vontade de fazer comunicação, política, se envolver na vida da comunidade. Xingava ele dia sim e dia também por ter desistido do futebol. Ele ria e dizia que o pai dele nunca se conformou – e ria mais ainda. Jogava de volante, e como jogava. O apelido de boleiro era Koeman, pelo estilo e pela cabeleira loira. Cabeça erguida, finalização, força e liderança. Participava do campeonato de várzea de Itajaí, mas não cheguei a ter a oportunidade de ver atuando no 11. Jogamos juntos no salão e no 7. Passagens engraçadíssimas nos campeonatos internos da faculdade – incluindo uma briga com um time de direito e esquecer um pé do tênis e pedir pra alguém da torcida segundos antes da partida começar. Lembro de duas idas a Florianópolis para ver o Inter contra o Figueirense, com nosso professor Mestre Galarça, outro colorado desgarrado do pago e tão doente pelo Inter quanto nós. (Nas aulas do Sandro a gente estava autorizado a subir pro laboratório de informática pra conferir quanto estava o jogo do Colorado). Boas lembranças.

Unindo estas duas passagens, resolvi escrever uma carta para meu amigo que deve estar querendo saber o que aconteceu com o Inter nestes últimos 16 anos.

Fala, camarada! Tudo tranquilo?

Já ouviu aquela banda que imita o Led Zepellin? Pior que é capaz de tu ter gostado! Ia começar falando da escola que leva o teu nome em Itajaí, da quantidade de criança que vai estudar e praticar esporte por lá, ou da maluquice política que se reinstalou no Brasil e no mundo… destruíram o nosso sonho por dentro, foi foda… No fim das contas o teu otimismo e o meu pessimismo tinham razão de ser. Ou quem sabe começaria pelo tempo que tranquei a faculdade, do retorno, de como as coisas foram acontecendo nesses anos todos, do meu filho (casei!)… Mas eu tô ligado que tu quer é saber do que aconteceu com o Inter!

Simplesmente vencemos a América e o Mundo! O Barcelona do Ronaldinho, velho! A América, inclusive, duas vezes! Foram 5 anos de magia pura, impressionante. Tu tinha que estar aqui pra ver… Depois de sofrer com Vinicius e Wilsão, é uma tragédia que tu não tenha visto Índio e Eller… Abelão e sua redenção, Fernandão (que também se foi num acidente), Tinga (sim, o Tinga era colorado e a gente nem sabia!), Sóbis, D’Alessandro… Bah, quanta coisa!

Depois de anos de estado de graça, entramos numas de esquecer as origens. Clube do Povo? Não, agora éramos os CAMPEÕES DE TUDO! E como na política que tanto discutimos, a soberba é o primeiro sinal pra derrocada. Como uma banda decante que vive dos anos de glória, esticamos ao máximo possível os vínculos com vencedores de outrora, já ricos e cansados, e acabamos chegando na série B… Logo ela que era nosso escudo nas discussões com os gremistas, lembra? Relendo o que escrevi até agora fui obrigado a rir: utilizei o mesmo espaço para falar do maior momento da história do clube e de um fracasso! Tem coisas que não mudam, sigo o chato de sempre. Faz falta um amigo pra dizer que eu tô quase sempre exagerando.

Resolvi te escrever nesse momento porque estamos enfrentando um vírus que trancou todo mundo em casa. Ao menos os de bom senso. Quase meio ano sem jogar bola, já pensou? E por longos meses o futebol profissional também ficou parado, assim como quase tudo. E eu comecei a pensar que o futebol nunca mais voltaria. E o pensamento que veio logo em seguida foi o de que estava tudo bem. Todas as coisas vão acabar um dia, e se fomos felizes com elas por um período, longo ou curto, o que importa são as boas lembranças.

Um abraço e nos vemos por aí.

About the author

Felipe

Felipe da Costa Conti, 34, Jornalista, Colorado.
Queria ser o Taffarel mas não serve nem pra Maizena.

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