Recado de um pugilista cansado para Bressan

 

Meu caro zagueiro, há momentos na vida que definem para sempre quem seremos. A maioria deles se avizinha sem que nos demos conta, acerca-se de nós na espreita e salta aos olhos quando não podemos mais fugir. Uma escolha inevitável e inesperada se impõe.

Parece que tu teve mais sorte, Bressan. Esse momento vem nascendo para ti lentamente desde o começo deste ano, em etapas graduais, obstáculos menores de partidas sem importância e que sobrevivem pouco na memória, confrontos com pouca repercussão para o futuro, crescendo timidamente em decisões de menor porte, para erguer-se definitivo, agora corpulento, afirmado numa catedral inusitada e gigantesca: titular numa final de Libertadores.

Bressan, eu já te odiei demais e em muitas partidas. Depositei em ti sentimentos mesquinhos que só me encontram quando me visto de torcedor (o futebol é um campo insano, reconheço), no que soube alimentar por ti, durante anos, uma raiva racional, sistemática e perene. Te lancei muitas vezes naquele baú de jogadores que vou lamentar para sempre terem vestido a camisa do Grêmio.

E desde lá do fundo desse mesmo baú, como um espírito rebelde que não aceita a separação do corpo, tu regressou na quarta-feira passada, após o cartão amarelo recebido pelo Kanemann. E sabe por que? Porque tu é o nosso Rocky Balboa, Bressan. Porque tu tem a grandeza não só de oferecer os dois lados da face, mas parece um caleidoscópio interminável de faces, sempre pronto para apanhar e renascer. E é isso mesmo que o Grêmio precisa saber fazer essa noite: apanhar e levantar, apanhar e levantar, apanhar e levantar. Sem desistir jamais.

Fomos teus Apollos e Dragos por tempo demais, Bressan, desferindo porradas ano após ano, falha após falha, derrota após derrota, em que nossos olhos inflamados expurgavam as dores de anos sem títulos sobre os teus ombros. E ali dentro do ringue, teimoso em não desistir, tu prosseguia teu destino de pugilista carcamano e tua saga anti-heroica, às vezes até escapando de nossas pancadas na sombra de outras camisas, mas logo regressando para mais um round conosco, jamais se omitindo, sempre disposto a enfrentar um novo golpe.

Assim como Rocky Balboa, porém, tu domina, agora sabemos, a rara arte de apanhar quieto pelo tempo que precisar, de responder à violência com ainda mais paciência, sábio dos limites físicos e morais de qualquer punho. Pois o tempo, esse senhor matreiro e irônico, parece estar mesmo ao teu lado. Viramos, agora, Apollos e Dragos de mãos exaustas de bater em ti, fragilizados por nos vermos, num dos momentos mais importantes de nossa vida como torcedores, depositados todos sob tua completa dependência.

Hoje à noite, é chegado o momento de devolver todos esses golpes, Bressan. Somos milhões de pugilistas cansados e de guardas abertas à espera da tua redenção. Porque há momentos na vida que definem para sempre quem seremos. E tu já apanhou demais, Bressan. É hora de dar o troco.

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Bica

Guilherme Lessa Bica, 32, é jornalista, gremista e admirador do futebol de meias habilidosos. Não acha que CR7 mereça ser chamado de craque.

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